MEXERICA DEIXA AS PESSOAS MAIS JOVENS

MEXERICA

Ei, rapaz da seção de mexerica, seu louco! Quero dizer-te que depois de ontem à noite te elegi o funcionário do mês… do ano… da década… lá do hortifruti . Na saída, deixei na caixinha de sugestões um pedido – por favor, aumentem o salário do Anderson – sim, eu vi o seu nome no crachá para nunca mais esquecer. Você é o meu mais novo crush da autoestima.

As palavras têm poder, meu caro, e você cavou isso para ti, enquanto arrumava tranquilamente a sua bancada de mexericas. Você estava enfileirando cuidadosamente cada fruta retirada de uma caixa empilhada em outras cinco caixas, quando me aproximei. Você não vai se lembrar de mim, eu estava com um vestido vermelho decotado e segurando uma rosa branca na boca – mentira! Eu estava com o meu traje mendigo habitual para fazer compras.

Faz tempo que desisti de parecer rica no hortifruti apinhado de gente rica de fato. Até porque, não é só o que eles vestem (e ganham) que os tornam ricos, é como a pele deles se comporta em sociedade. É uma pele que não apresenta o brilho oleoso classe média que nós temos. É uma cútis sempre saudável e com um degrade entre o fosco e o brilho na medida certa mesmo que tenham caminhado por cinco horas no deserto.

Então, nem que eu chegasse apinhada de swarosvski emprestado de uma amiga abastada, adiantaria. A raiz do cabelo e a testa reluzindo sebo já entregariam meu ordenado do mês. Desencanei! Frequento o espaço conformada de que no meu carrinho jamais entrará azeite trufado. Prefiro aplicar tamanho investimento de outra forma.

Mas, voltando a nós, – olha a intimidade!

Quando encostei meu carrinho próximo à sua gôndola, no rádio do hortifruti tocava bem baixinho aquela música da Daniela Mercury: “Quando não tinha nada, eu quis\ quando tudo era ausência, esperei\ quando tive frio, tremi\ quando tive coragem, liguei…”

Ao perceber o seu cuidado em organizar a bancada, resolvi pegar as mexericas que estavam na caixa, para não te atrapalhar. Já com a mão em uma das frutas – mostrei que sou classe média, mas sou educadinha – te pedi licença. E você, mantendo o seu ritmo de trabalho – pega uma fruta, enfileira, volta, pega outra – respondeu, respondeu não! Soltou a magia pelo ar – “Fique à vontade, JOVEM” – de novo em câmera lenta – “Fi-que-à-von-ta-de-JO-VEM”.

Nessa hora o volume da música subiu e a Daniela Mercury cantou em plenos pulmões “Quando vi vooooocê me apaiiiixoneiiii…” O meu nirvana era tanto que pude visualizar os clientes, caixas, gerentes e demais funcionários cantando junto e balançado os braços no alto para um lado e para o outro… “Ohhhh Amarazáia zoê, záia, záia, a hin hingá do hanhan…”. Foi lindo!

Fiquei ali na sua frente, congelada com a mexerica na mão, não queria nunca mais sair daquele espaço onde, com a sua palavra, abriu-se uma fenda no tempo em que eu ainda era de alguma forma jovem. É como se você tivesse me resgatado do tenebroso “vale das senhoras”, um submundo austero, frio, cinza, onde vagam pessoas que estão bem longe da terceira idade, mas que perdem suas forças ao ouvir diariamente “senhora… senhora… senhora”.

Um dia quero ser uma senhora linda – tipo Fernanda Montenegro – e ostentar minha trajetória de vida orgulhosa! Mas por ora, ainda pretendo desfrutar mais um pouquinho do “jovem” ou “senhorita”. Já falei, não há empoderamento que sustente um “senhora” à queima roupa todos os dias.

Você acabou o seu serviço, foi embora e eu fiquei mais alguns segundos fora do ar, certa de que mexerica rejuvenesce. Levei dois quilos!

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