CARTA ABERTA À MINHA VIZINHA

vizinha

Ô vizinha do andar de baixo, minha querida, você não sabe, mas tens mexido com os meus instintos nos últimos tempos. Em pleno domingo ensolarado e com temperaturas amenas em terras cariocas, a senhora escancara pelos ares o aroma de um refogado per-fei-to!? Um perfume inebriante de cebola e alho tostados no azeite, que invadiu a minha cozinha no momento em que eu estava olhando para a porta da geladeira aberta e vivendo o maior dilema existencial da humanidade: “Não tem nada para comer”, dos mesmos criadores de “Eu não tenho roupa para sair”.

Outro dia, a senhora jogou ao vento a fragrância de bolo de laranja assando, justo em um fim de tarde chuvoso, isso é GOLPE, minha cara. Saiba que mesmo sem ter visto o resultado, já o imaginei redondo, fofinho, alto e saindo fumacinha ao ser partido em generosos pedaços. Daqueles bolos que a gente come quente mesmo, porque não aguenta esperar esfriar, e refresca a boca com um copão de leite gelado depois. Pois é, fiz toda essa cena na cabeça só com a essência  que tomou conta da minha casa… “Deu onda… fazer o que?“

Saiba que panela de pressão chiando, leiteira apitando e cheiro de bolo assando são afagos na minha alma. É um transporte imediato aos tempos de criança, aos tempos de proteção contínua. É como se esses elementos sonoros e olfativos me dissessem na infância, “Olha, está tudo bem, tem um adulto ali na cozinha, você está amparada”.

Cara vizinha, eu te conheço, já esbarrei com a senhora e seus efusivos cabelos vermelhos no elevador. Sei que mora sozinha e que faz todas essas iguarias para o seu bel prazer. Um bolo todinho só para você! Isso é a comprovação de que a idade traz sabedorias!

E pelo visto a senhora não é diabética mesmo, porque ontem, mais uma vez, seduziu o meu olfato com suas prendas culinárias. Eu estava no computador quando uma brisa me trouxe o preparo de um doce de banana caramelizando. E foi certeiro: fechei os olhos, respirei fundo e senti o bálsamo de doce de banana caseiro borbulhando na panela! É… “Não está sendo fácil…”

Fiquei acompanhando a evolução do seu preparo pelo perfume adocicado, hipnotizada… Ops, peraí, parece que está passando do ponto. O aroma está mais forte! Começo a torcer internamente para a senhora desligar o fogo… Mas nada… Se queimar o fundo amarga todo o resto. E não sei por que, imaginei uma panela grande, farta e perder tudo isso seria uma tragédia marcada pelo cheiro ardido de comida esturricada.

No rompante, debrucei o corpo na janela da minha cozinha e gritei – sim, era eu: “Queima não… Queima não…” com uma entonação à moda Cléber Machado e o seu emblemático bordão “Hoje não… Hoje não…” Uffa! Valeu o berro! A senhora salvou o doce e garantiu o primeiro lugar no pódio.

Eu falei que tens mexido com meus instintos, né? Tanto que… Eu confesso… Fiz cogumelos Paris salteados hoje e levei a frigideira fumegando para perto da janela, só para te desestruturar! A senhora Sentiu?

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