A ‘GRATIDÃO’ ESTÁ SOFRENDO

sofrendo

Olá, eu sou a gratidão e venho por meio desta dizer que estou de saco cheio do uso excessivo de minha pessoa sem o menor sentido e respeito. Encontro-me no meu quarto escuro, deitada na cama em posição fetal, chorando e me perguntando repetidamente onde foi que a minha vida chegou a essa banalização desenfreada.

Ora, qualquer vocábulo deseja ser reconhecido, mas por real necessidade e não apenas para ganhar uma mídia barata. Os tempos são outros, eu sei, mas no momento não estou sabendo lidar com a carga de trabalho que envolve milhares de pessoas me acionando diariamente quando postam fotos em suas redes sociais com uma barca de comida japonesa seguida da hashtag “gratidão”. Eu nem gosto de japonês. Vivo de luz. E onde eu entro nessa negociata, minha gente, gratidão de que? Nem pense em dizer a “Deus” porque, né! Acho que não é do feitio dele dar plantão em restaurantes.

Homenageie o cartão Visa ou Mastercard, esses sim são uteis para a sua façanha. Aliás, a dobradinha gratidão e foto de comida pegou forte! E dá-lhe minha presença do ladinho da coxinha, da pizza, da taça de sorvete incrível, do brownie, do mate na praia, da empada ressecada da esquina de casa… É muita terapia para entender como eu, do nada, virei acompanhamento gastronômico.

Eu não aguento mais acordar e ver minha figura atrelada a selfies – de gosto duvidoso digam-se de passagem- no Starbucks, no espelho do elevador, na academia… Gente, eu posso mais que isso, tá! Não gastem meus predicados nesses momentos, não, por favor! Sejam felizes fazendo seus autorretratos – tudo bem – mas, cara, na boa, não põe isso na minha conta, eu imploro.

Sinto-me um artigo que caiu no gosto popular e está sendo vendido aos montes em qualquer camelô. “Moço, quanto custa essa gratidão pendurada aqui”. “R$2”. “Ótimo! Vou levar três só porque está barato e a personagem da Giovanna Antonelli está super usando na novela das nove.”

Ah, sério, honrem a minha história, a minha definição no dicionário! Prefiro acreditar que os tempos analógicos e menos imediatos ainda existem. Quero ouvir meu nome proferido quando a situação pede: uma pessoa ajuda a outra em um momento importante de sua vida e ao final da experiência – boa ou ruim-, elas se abraçam e externam tamanha gratidão.

É isso! Eu sei que estou sendo útil, de fato, quando me sinto grande dentro de alguém. Tá! Pode externar essa gratidão em forma de textão, hashtag, foto… Mas só quando essa grandeza preenche você de verdade. De resto, não passo de mero enfeite, modismo.

No mais, pensem, só quero uma gratidão mais raiz e menos Nutella.

Atenciosamente,
Gratidão.

#gratidão

 

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