ESSA GERAÇÃO “CRUSH”

Você aí deslizando seus dedinhos em um dispositivo eletrônico, vendo vidas perfeitas passando na sua timeline com aquela overdose de gente feliz que curtiu o final de semana à vera. Você aí, olhando para os seus pais (ou qualquer pessoa) quase quarentões e se perguntando no alto do seu mundinho digital como era a infância deles sem internet.

Eu vos digo, através de um episódio isolado, como era. Sem a segregação familiar ocasionada pelos “wifis” e “4Gs” da vida, os irmãos, pasmem, tinham que conviver e resolver suas diferenças no tête à tête, sem essa de “unfolow”, de” block”, de “deslike”, de “fulano saiu do grupo da família” e o escambau. Uma relação mais raiz e menos Nutella.

Eis que meus irmãos, com nove e doze anos, iniciaram uma briga por conta de um pacote de biscoitos, mais precisamente pelas rosquinhas da marca Mabel. Para você ver como era a vida analógica. E nessa de… “O pacote é meu, não, é meu, nãaaaao… mãeeeeeeee olha fulano pegando minhas coisas”, a embalagem rasgou ao meio, voando biscoito para todos os cantos da imensa sala de um apartamento no interior de Minas.

E como tudo nos anos 80 parece roteiro de filme, o nosso pai chegou bem naquele instante, como se uma rosquinha caísse em câmera lenta nos seus pés, na porta de casa, instaurando o silêncio profundo.

Segurando sua maleta de trabalho, o patriarca avaliava a cena: duas crianças descabeladas, imóveis, cada uma com um pedaço da embalagem nas mãos e milhares de rosquinhas em volta.

Os irmãos se olham, não são mais rivais, eram cúmplices na bronca que estava por vir. Irmãos podem estar em guerra, mas quando sabem que estão encrencados juntos são de uma parceria bonita de se ver.

Meu pai senta no sofá, que também está apinhado de biscoitos, e pergunta olhando para aquelas duas criaturas apavoradas “Gostam da rosquinha Mabel?” Ambos balançam a cabeça em um “siiiiim” exagerado.

Pausa dramática. Meu pai se levanta, sai de casa e volta, segundos depois, com mais de 50 pacotes da “rosquinha da discórdia” nas mãos.

Meus irmãos se animam, vislumbram uma vida cheia delas até o final do ano. Mas, estamos nos anos oitenta, “migles”, a pedagogia dessa época não era a de “biscoitos da sorte”. O meu pai colocou todos os pacotes no meio da sala e disse em tom de correção: “Só saiam daqui quando comerem to-dos e-sses bis-coi-tos até o fim”. A frase poderia ser um meme engraçadinho que viralizou nas redes, mas não, era uma ordem real.

Começam a comer, meio que empolgados, achando engraçado, mas depois do primeiro pacote estavam em prantos, tipo aquele emoticons chorando exageradamente. Aí você pensa: ”Eles poderiam ter se levantado e ignorado as ordens”, repito, eram anos oitenta, meus caros, geração do “Meu pai só me olha”.

Passaram o dia todo no castigo, entre choro, pedidos de socorro para mãe, biscoitos goela abaixo, sem água e com casos de ânsia de vômito (isso é pesado, eu sei). Depois de horas de penitência, os irmãos se tornaram os melhores amigos e no final das contas estavam armando estratégias para eliminar mais rapidamente os pacotes (esconderam debaixo do sofá, jogaram pela janela, deram para o gato).

Nosso pai apareceu no final da tarde para a derradeira lição de moral, pois é, tinha disso! “Irmãos brigando por causa de comida é muito feio, espero que tenham aprendido, estão liberados”. Correram para a cozinha para beber água.

Eles nunca mais brigaram – por causa de comida – mas por milhões de outros motivos, sim. Partilharam outras tantas lições e correções. Cresceram. Estão vivos e ainda comem rosquinhas.

E você aí, achando que o pior castigo é quando o seu pai corta a sua internet. Ah, essa geração “crush”.

Anúncios