DESCULPA, SENHOR, FOI UM ENGANO!

lobo-em-pele

Hortfruti lotado.
Filas enormes em todos os caixas.
A cada passo, dez pedidos de licença.
Não tinha nem mais carrinhos, só a cesta.
Corredores engarrafados por todo o lado.

Eu só queria comprar pimenta dedo de moça, cogumelos e peito de frango. Pensei que tivesse entrado no Mundial, mas pelo preço do azeite, tive certeza que não.
Qualquer seção estava disputadíssima, até a de frutas exóticas. Sim, lá existe isso.
Já com o pé na saída, vejo de longe, um senhor perdido no meio da multidão.
Cabelos brancos fartos e um bigode de respeito, parecido com Einstein.
Estava rodopiando no pouco espaço que lhe restava como se tudo à sua volta estivesse escrito em japonês.

Não resisto, vou até ele, desbravando aquele mar de gente.
Paro ao seu lado como quem não quer nada.
Ele estava com uma folha de caderno nas mãos, toda amassada.
Finalmente me vê e pede ajuda, como eu previa. Não posso ver pessoas em apuros.
Com uma mão na bengala e a outra no carrinho repetia meio atordoado: “eu nunca fui a um mercado! Não posso errar nos ingredientes. Não posso errar!”
Aponta na lista o que procura: espinafre, salsinha, beterraba, batata e músculo – único item que ele conseguiu pegar por ter uma etiqueta na embalagem com o nome gigante.

“Não posso errar, não posso errar!” Repetia como se aquilo fosse a missão da sua vida.Percebendo seu breve desespero, tratei de pegar todos os ingredientes rapidamente, enquanto ele me esperava insistindo no seu bordão: “Não posso errar nada!”

Compras finalizadas, o deixei na fila de idosos e estufei o peito toda orgulhosa. Aquela coisa da boa ação do dia, sabe?
Só que mais uma vez, a gentileza não gerou gentileza e sim um, “a SE-NHO-RA caiu do céu, muito obrigado”
Pensei, ah, de novo, não fode! É a segunda vez que sou superlegal com alguém que tem o dobro da minha idade + dez anos, e nem assim escapo do “SE-NHO-RA”. É caso para botox urgente!

Ainda contrariada, respiro bem fundo, olho nos olhos dele, olho para os itens no carrinho, retorno para os olhos dele, penso um pouco, e com um sorrisinho de canto de boca, satisfeita, eu digo: “Imagina, disponha”.
E vou embora.

Eu me enganei. Não era salsinha, era coentro.
(risos maquiavélicos)

#cozinhasemfiltro

 

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