AMOR DE FIM DE FEIRA

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foto reprodução google

Eulália – uma jovem de 30 anos e sorriso farto – encontrou seu príncipe de olhos azuis no lugar mais inesperado de sua vida: na barraca de ovos de uma feira livre, da zona sul carioca e no horário da xepa.

Apesar da sua animação inicial, estava certa de que jamais encontraria aquela beldade de novo. Homens charmosos não frequentam feiras.

Mas suas previsões estavam erradas e o bonitão apareceu nas semanas seguintes, para comprar mais ovos e exibir todo seu encanto: um metro e oitenta de altura, sorriso sedutor, cabelos negros, fala mansa e muita simpatia.

Lá pelo quarto ou quinto encontro casual – sempre na barraca de ovos – o rapaz quebrou o platonismo daquela relação e cumprimentou Eulália com uma piscadinha de olho. Com aquele olho azul.

O gesto foi o suficiente para Eulália entrar numa paixão fulminante e criar histórias inventadas em sua cabecinha. Para ela, os ovos, comprados pelo seu príncipe, eram para a sua avó, uma senhora rica, dona de um luxuoso apartamento no Flamengo. Ele, o único herdeiro.

Mas a vida de Eulália começou a declinar quando o seu príncipe simplesmente parou de ir à feira.

Enlouquecida, Eulália chegava com os feirantes, às quatro da manhã, e só saia quando não havia mais nenhuma alma. Nenhuma possibilidade do seu amado aparecer. Seguiu por meses assim, depois, ampliou suas buscas para outros bairros e vagava de feira em feira – em média vinte por dia, de domingo a domingo. Por onde passava, comprava ovos – seu amuleto da sorte.

Eulália estava um farrapo, magra, abatida, doente, em surto.
Perdeu o emprego, os amigos, se afastou da família, vendeu os móveis e ficou sem dinheiro.
Só lhe restou o apartamento vazio, cheio de ovos.
Não havia mais condições dela continuar. Então, um ano depois, finalmente ela desistiu de encontrar o seu grande amor e voltou para casa com a derradeira cartela de ovos.

Já no elevador, de volta para sua solidão, alguém entra no terceiro andar.
Quando ela levanta vagarosamente seu rosto entristecido, encontra um par de olhos azuis.
Sem pensar, o agarra de forma voraz e o arrasta para seu apartamento. Tranca as portas e em um ato de felicidade extrema, quebra centenas de ovos, atirando-os contra o chão, gargalhando, rodopiando pela sala, fora de si.
Abraça o seu homem dos olhos azuis e exige que eles se amem ali, naquele cenário caótico. Naquele chão todo amarelo, escorregadio.

E assim, Eulália teve a sua tão esperada noite de amor por horas seguidas, sem parar. Ardente. Enfraquecida de tanto prazer, sussurrou “que bom te encontrar, meu príncipe dos olhos azuis” e morreu em seguida.

Já havia concluído a sua missão.
Despediu-se desse mundo inebriada de amor, desejo, claras, gemas e muitos delírios.

A loucura de Eulália havia mudado para sempre a vida do senhor Geraldo, os olhos azuis do elevador, o porteiro do prédio. Um homem de meia idade, baixo, barrigudo e sem nenhuma formosura.
Mas naquele dia, sentiu-se um príncipe.

Jamais esqueceu Eulália.
Visita seu túmulo todos os anos e sempre a leva uma dúzia de ovos.

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