QUEM ERA VOCÊ EM 2006?

2006

Ah, se a “Eu” de 26 anos visse a “Eu” de 36 anos, toda feliz com a chegada de dois livros enormes de receita, sua única aquisição da Black Friday.

Certamente, a minha versão mais jovem (de cabelos compridos, roupinhas coladinhas e morando com os pais) reviraria os olhos, empinaria o nariz e falaria toda cheia de si, quase que arrogante, que não vê o me-nor-sen-ti-do em perder tempo cozinhando e muito menos gastando dinheiro com livros dessa natureza. Para ela, comprar roupas seria muito mais inteligente. Ela acionaria seu deboche costumeiro e provaria, de forma bem teatral, cheia de ‘piadocas’, o quão é burrice não aproveitar a praticidade dos congelados. O quão o micro-ondas está aí para fazer tudo que o fogão faz. Ela usaria todo seu poder de persuasão, de uma escorpiana decidida, para convencer qualquer um ao seu redor. Quem iria contrariar aquele olhar fulminante seguido de um certeiro “estou errada?”.Ninguém!

Mas sinto informar, “Eu” Jovem, sim, você está errada! E hoje em dia, dez anos depois, você (cabelos curtos, morando no Rio e com roupas nem tão justinhas assim) é uma entusiasta da cozinha (da comida de verdade) e levanta bandeiras e mais bandeiras de repúdio aos congelados\industrializados. Até pipoca de micro-ondas, pasmem, você abriu mão.

Uma década de mudança, minha cara, e diversos caminhos percorridos te trouxeram aqui, empolgada com livros de receitas da Rita Lobo, aguenta essa! E quer saber? Ainda bem que não somos as mesmas, seria entediante ter o mesmo discurso de 2006. Mudar é vital! É o que nos move. Tanto é que pode ser que daqui a dez anos, a “eu-futura”, ame tudo que a “eu-passado-jovem” amou, e assim, refaça a amizade com a lasanha pronta. Tudo pode acontecer.

Só uma coisa não muda, lamento sociedade, o nosso deboche! Esse danadinho continua afiadíssimo, pronto para ser usado em qualquer deixa. Ele é tipo chassi de carro, vem de fábrica, se modificar é falsificar o modelo. “Eu ontem, hoje e amanhã”, assim, esse ser cheio de ironia.

Anúncios