A CAIXA DE CAXIAS

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foto reprodução google

Entro no mercado dois minutos antes do horário de encerramento.
Está quase vazio. Três ou quatro retardatários circulam no local.
Funcionários conversam em voz alta coisas íntimas, ignoram minha existência.

Agilizo minhas compras, nada demais: laranja, batata doce, cenoura, alho, cebola, salsinha, cebolinha e agrião. No caminho do caixa, pego uma embalagem de leite e uma baguete com queijo em cima.
Trancam as portas principais e desligam o ar condicionado
Não há nenhuma fresta aparente, nada, nem um ventinho.
Estou totalmente FE-CHA-DA no mercado. A fobia agradece.
O penúltimo cliente sai, sou oficialmente a última pessoa no recinto. Odeio mercado lotado, mas ironicamente senti falta de uma fila. Pequena.

Recolhem os últimos carrinhos, passam pano no chão e repõem mercadorias. Apagam as luzes de três dos sete corredores, quase uma expulsão.

As portas estão FE-CHA-DAS e o ar esquentando.

Apenas uma caixa atendendo pede para eu esperar.
As outras sete caixas contam dinheiro com sorriso no rosto.
Finalmente sou atendida. É compra pequena. Vai ser rápido.
Jamais encheria um carrinho àquela hora. Sou legal.
Boa noite, caixa, vamos lá.

Ela sorri, pega a batata doce e em seguida uma arma letal:
a ficha com os códigos de frutas, legumes, verduras e pães.
É novata. Não sabe de cor. É calma.
Desliza a unha, com esmalte rosa fluorescente descascando, em cada item da ficha va-ga-ro-sa-men-te.
De repente minhas compras, poucas, pareciam compras do mês, de uma família com doze pessoas.
E a caixa segue “isso aqui é laranja pêra ou lima?”
Cada código é um parto.

As portas estão FE-CHA-DAS e o ar esquentando.

E ela continua teclando número por número, em um processo de alfabetização numérica.
Mais dois corredores ficam às escuras, apenas duas partes ainda estão iluminadas.
As outras caixas aguardam ansiosas. É sexta! É festa!
Consigo imaginá-las cantando de mãos dadas “hoje, é um novo dia, de um novo tempo, que começou”

Dois itens finais e estamos livres!

A novata se pronuncia sabiamente “elas estão doidas para ir embora” e volta os olhos na lista: ce-nou-ra, ce-nou-ra, ce-nou-ra…
A cada sílaba pronunciada, me arrependo de ter comprado coisas que precisam pesar, de lista, de código, de consulta, de unha rosa fluorescente indo e voltando!

As portas estão FE-CHA-DAS e o ar esquentando

Último produto: “Isso aqui é pão de quê?”
Porque eu não peguei um pão francês, meu Deus, pra quê complicar e pegar pão com queijo em cima, caralho!
Mais uma olhadela na porra da ficha para identificar o dito cujo:
“É baguete integral?”
Isso! É! Super integral! Nunca houve nada tão integral nesta vida.
Enquanto ela tecla pacientemente diz: “Eu moro em  Duque de Caxias, só vou chegar em casa uma da manhã (são 21h45). Eu acordo às oito da manhã, para sair às dez e chegar aqui às duas da tarde.
Estranhamente, aquela declaração me comove e me constrange.
Cheguei lá em cima da hora de fechar por preguiça de sair do meu aconchego. Eu moro na esquina.
E ela lá, vivendo seus códigos e números no seu tempo antes de enfrentar sua jornada de volta para casa.

Acabou, alguém abre parte da porta, entra um ar, pago a conta, vou embora.

Resta apenas uma luz acesa.

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