TUDO EM EXCESSO ENJOA, SEMPRE, ATÉ NETFLIX

Resultado de imagem para ENJOADA E PRESSÃO

foto reprodução google

Ainda no Brasil, programando a viagem à Cartagena, na Colômbia, dei aquela olhadela básica nos sites para saber mais sobre comida local. A pesquisa faz parte do pacote “vamos desbravar o mundo da culinária alheia”, como se eu fosse aquelas que provam – numa boa – escorpião frito na China e documenta tudo para a humanidade. Não mesmo, sorry, sou um fracasso gustativo, quando o aroma ou a aparência da comida não me agradam, retraio o corpo feito gato diante de água fria. Mas levei muita boa vontade na bagagem.

Já em Cartagena, colonial, vibrante e super-abafada, em um estado constante de “estou no vapor de uma panela de pressão gigante”, fui toda empolgada experimentar o prato típico: arroz de coco com peixe (ensopado ou frito). A prova, bem sucedida dessa vez, aconteceu em um restaurante modesto, no fervo da cidade amuralhada. Nossa! É um arroz em tom marrom com sabor de coco queimadinho, um misto de doce e salgado que combina super bem com peixe. Que alegria, que sensação maravilhosa, hum, quero comer isso para sempre, que vida feliz!

Corta para o sexto dia de estadia na cidade das casas coloridas e seu bafo a la Bangu. Maquiagem derretendo rosto abaixo, escorrendo um rímel aqui e um batom vermelho acolá, entro no restaurante e, já de cara, a atendente oferece a porra do arroz de coco com peixe: “Plato de lo dia, senhorita”.  Àquela altura, suas palavras pareciam uma ofensa pessoal e o foda é que eu nem poderia retrucar, porque ninguém consegue ficar puto em outro idioma, a raiva quando sobe, meu bem, é na sua língua, por mais que você tente fazer a tradução. Até soltei, sem querer, um “puta que pariu, de novo, vocês não enjoam, não?” “Desculpa, senhorita, o que te pasa?”. Volto ao portunhol “No pasa nada, tranquilo”.

Tento mais dois ou três estabelecimentos e lá estava o danado, feito filme de terror, em que a treva sempre volta para te lembrar do pacto selado – “Ah, eu quero comer isso para sempre”.

Já em processo de desidratação, entro no décimo local, jogando a toalha e perguntando ofegante: “há outra opção de prato além de peixes variados com arroz de coco?”. A atendente me tira do limbo da vida ao dizer “Sim, senhorita, voy traer la carta”. Sento, refresco-me no ar condicionado, retomo parte da minha dignidade e pego o cardápio. A mocinha, supersimpática, diz, sorridente, que além da clássica parceria arroz de coco e peixes, tem o delicioso prato colombiano “Ajiaco”.

Nãoooooo! (gritei por dentro)

Por fora, sorrio, um sorriso congelado/desolado acompanhado de um delírio: eu tirava da bolsa uma quentinha contendo arroz BRANCO, feijão temperadinho e uma carne suculenta, bem caseira, e pedia para ela esquentar no micro-ondas. Eu Já estava há 16 dias em terras colombianas, entrando para o modo “saudades do feijão”. Só quem viaja para fora do Brasil sabe.

Jantei sanduíche do hotel, fiz as malas e decolei para San Andrés.

O arroz de coco é uma de-lí-cia, o peixe é suculento, mas, tu-do-em-excesso-enjoa, sempre, até Netflix.

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