GULODICE, UMA EMPRESA DE SUCESSO

olho-grande

Nos anos noventa, na minha adolescência no interior de Minas, época em que descer na boquinha da garrafa estava com tudo, eu tinha uma melhor amiga que vinha com aquelas mães forno e fogão sorridente, sempre disposta a te oferecer um pedacinho de bolo, um pão de queijo, uma sobremesa, um biscoito, um leitão assado. Com ela, o assunto sempre começava com “senta aí, puxa a cadeira, come alguma coisa”.

Além de tudo era uma daquelas mães linda, simpática, inteligente, vaidosa, que hoje me faz pensar: como ela conseguia conciliar a confecção de tantas iguarias e ainda manter a pose sem suar o rosto e desmanchar o penteado sempre impecável? Nunca ouvi ninguém naquela casa dizer “hum, hoje não tem nada para comer, vamos pedir uma lanche”. Nunca. A mesa estava sempre preparada para receber alguma delícia. Gulosa profissional que sou, desde sempre abusei desse predicado da mãe prendada: frequentava o café da manhã, às 06:30, antes de seguir com a minha amiga para o colégio, e também o almoço e o café da tarde. Isso me rendeu o apelido de “a amiguinha que fila comida”.

Às vezes eu sentia vergonha, mas o frango assado com batatas coradas valia a minha cara de pau. Em uma dessas tardes de café, após eu comer duas fatias de bolo de chocolate fresquinho, a mãe dela me chamou no canto para uma conversa. Imaginei o pior: vai pedir para eu não comer tanto lá. Meus olhos estavam marejando quando ela perguntou de forma bem direta: “Você aceitaria dar aula para a minha filha no lugar do professor particular? As notas dela são melhores quando estuda com você”. Aliviada eu disse Sim! E ela emendou com um “quanto você cobraria?” Aos catorze anos de idade eu não sabia o peso do dinheiro e muito menos mensurar a cotação do meu mais novo ofício.

Na minha cabeça eu pensava “só o fato de ter uma desculpa para comer lá três vezes por semana, já estava mais do que bem pago”. Isso sim era valioso para mim. Mas, diante da possibilidade de progredir na minha carreira de comilona, lancei a minha oferta: “uma fornada daquele amendoim doce crocante que você faz” e selamos ali o meu primeiro e único negócio de sucesso. Foram meses de quitutes à vontade e fornadas de amendoim até minha amiga passar de ano na escola. Não a vejo há duas décadas, nem nas redes, mas, se a reencontrasse, a moeda ‘amendoim doce crocante’ ainda estaria de pé.


curta www.facebook.com/cozinhamsemfiltro e tenha acesso a conteúdos exclusivos na rede.

 

Anúncios