COM UM SORRISO NO ROSTO APESAR DAS BATALHAS DIÁRIAS.

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Era um homem de 58 anos, carioca, casado, três filhos, executivo, engravatado, experiente e com um currículo invejável. No escritório, ar condicionado glacial, mesa com tampo de vidro imponente, secretária à disposição e computador da maça brilhante. Salário nas alturas, casa de praia, cachorro com pedigree, carro do ano, viagens, joias para a mulher amada, perfume importado, amigos, festas e champagne.

Era um homem de 58 anos demitido. Não é mais um homem, é um “senhor velho demais para as inúmeras oportunidades de emprego disponíveis no mercado”. O potente currículo não vale mais nada. Tem data de validade. A esposa perde o emprego também e o fardo torna-se ainda mais pesado.

Era um homem de 58 anos desempregado. O dinheiro acabando e decisões sendo tomadas: troca o carro por um modelo mais barato, risca viagens, festas e bebidas da lista. A situação aperta, é preciso vender a casa de praia e com ela todas as boas lembranças. A esposa chora, abraça cada árvore do quintal no dia da despedida, recorda momentos, sente raiva, engole a angústia e segue em frente.

Recomeçam. Como? Vendendo cupcake em Santa Teresa. Não deu certo. A filha ajuda, sugere outro local: a Praça São Salvador, em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro. Seguem a dica. Mas não tem espaço e nem barraca disponível. São levados para outra feira, só que menos movimentada. Ganham confiança e além dos cupcakes, fazem e vendem pastel de forno, quindim, cocada e brownie. Depois de alguns meses conseguem finalmente uma barraca na Praça São Salvador, aos domingos, dia do grupo de chorinho.  Passam-se dois anos desde que começaram a nova jornada e a “Praça” libera a venda de comida fresca. Entra no cardápio do casal a feijoada, especialidade dele nos tempos em que cozinhar era o hobby do executivo bem sucedido. Dá certo de novo, e o prato, de R$20, vem com uma generosa porção de arroz, couve, farofa e a feijoada com carnes nobres desfiadas. De-li-cio-so!A iguaria torna-se conhecidíssima nos arredores e fora dele: dão até entrevista para Ana Maria Braga, canal GNT, jornal de gringo e para TV Alemã.

  1. Quatro anos depois de sua demissão.

Hoje, ele é um homem de 62 anos que vende feijoada e outros pratos na Praça São Salvador, em Laranjeiras. Atendimento sempre gentil, animado, sorridente e falante.

Se fosse uma matéria clichê de televisão, ele diria que não trocaria a vida atual por nenhuma rotina de escritório. Mas é vida real,bem, e ele diz com olhos marejados “voltaria para o antigo ofício sem pensar”.

É a terceira vez que eu como a feijoada deste simpático casal e jamais poderia imaginar que por trás daquele delicioso prato teria uma história tão cheia de curvas. Para mim, era só um senhor e uma senhora felizes vendendo uma feijoada maravilhosa. E ainda é. Mas naquela tarde de domingo proseando, resgatei um pensamento: é preciso parar de simplificar a vida alheia e amplificar os nossos percalços. Tá todo mundo vendendo “a sua feijoada” com um sorriso no rosto enquanto trava suas batalhas diárias.

Era um homem de…


A propósito. A deliciosa feijoada é vendida aos domingos, na Praça São Salvador, em Laranjeiras. Procure pela barraca “Delícias da Mama” e lá estará o simpático casal, inspiração para esse texto. Tentem chegar antes das 13h, porque acaba rapidinho, de tão bom que é.

 

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