A CRISE DOS QUASE 40 ANOS EM PLENA FILA DE SUPERMERCADO

Você não sabe, caixa de supermercado desconhecida, mas naquela noite de segunda-feira quente, em pleno inverno carioca, você me fez voltar para casa com duas sacolas  de compras e uma crise de idade. Eu estava na sua frente, com dois leites de caixinha – que estavam na promoção, um pacote de pão de forma e um pedaço de queijo muçarela quando você gritou para uma cliente “Moça, você esqueceu isso aqui”.  Aquele “moça” entrou como uma navalha nos meus ouvidos, fazendo sangrar uma dúvida:  estaria eu apta a receber o “moça” como qualificação, tal qual a outra cliente de 30 e poucos anos? O que a fez sair do padrão de atendimento “chame qualquer cliente por senhora (o) como forma de respeito”? Não quis pagar para ver. Passei as compras acelerada e fui logo me adiantando: “É visa, é débito, não precisa da minha via, obrigada, boa noite, tchau”. Isso, dito numa talagada só. A caixa nem respirou.

Eu sei, estamos numa época de empoderamento feminino, de fortalecimento de nossa imagem independente de padrões estéticos, mas, definitivamente, eu não estava nos meus dias de peito estufado e mensagens empoderadas de “eu me basto”. Eu estava realmente à mercê daquela desconhecida caixa e suas palavras. Peguei as compras correndo, cantei internamente um “lá, lá, lá, lá” para evitar qualquer interação verbal entre a gente. Acho que consigo, estou com um pé fora do mercado, dou dois passos, confiro as compras, sinto falta de uma sacola, olho para trás, esqueci o pacote de pão de forma. Deixo para lá. Sigo em frente. Tarde demais! Ela grita em decibéis estratosféricos “Senhora, senhora, a senhora esqueceu o pão de forma. A senhora poderia vir aqui buscar?”. O desfecho seria tão diferente se ela tivesse usado os mesmos pulmões para bradar “Moça, moça, a moça esqueceu o pão de forma.

 Ê mês de agosto!

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