O AMOR FORA DA CAIXINHA

Uma mulher do signo de escorpião em seus dias de TPM transforma qualquer situação rotineira em uma catástrofe sentimental. E cá estamos nós de novo nesse cíclo hormonal demoníaco aterrorizando a vida que quem nos cerca. A vítima, mais uma vez o amado, que estava no lugar errado, no dia errado, com a atitude errada.

Pelo menos uma vez por mês o pobre coitado enfrenta um teste de resistência sem aviso prévio, que o joga direto para um campo minado sem nenhuma proteção. O ataque do momento aconteceu em plena sala de casa quando o amado chega da rua com uma sacola na mão e uma ideia da cabeça: macarrão ao molho branco. Até aí tudo bem. Ele se aproxima com sorriso maroto no rosto – sem saber que segundos depois seria dragado por um abismo de melancolia – e saca da tal sacola duas caixinhas de creme de leite.

O gesto – em câmera lenta – automaticamente faz nascer faíscas de fogo nos meus olhos que diziam: “Como assim ele não entendeu que há nove meses falo mil vezes por dia que vamos eliminar alimentos industrializados (possíveis) da nossa vida por conta na lista de ingredientes nocivos à saúde que eles carregam. Como assim ele não me viu falar que eu tinha aprendido a fazer molho branco. Como assim ele não se lembra que já comeu esse molho branco que definitivamente não leva nenhuma gota de creme de leite em sua composição. Como  assim?”

Naquele momento não eram só duas caixinhas de creme de leite, era um certificado escancarado de “Você não escuta nada do que eu digo”, “Você não presta atenção em mim”, “Se fosse um assunto de seu interesse, aí seria diferente”, “Se fosse com seu amigo você lembraria”, “Se fosse uma mensagem de grupo de trabalho no whatsapp, teria decorado”… E assim eu segui até o infinito de possibilidades de frases típicas de uma mulher em frangalhos hormonais e seu looping de reclamação.

Ele ficou ali, estático, com as caixinhas da discórdia nas mãos por longos trinta minutos e certamente pensando: “Eu só queria um macarrão ao molho branco e não dar início a uma guerra mundial”. Mas depois que eu exorcizei tudo que eu precisava (e não precisava), finalmente fui para cozinha preparar o macarrão ao molho branco à base de farinha de trigo, manteiga e leite – sem nenhuma caixinha entre nós. A paz reinava novamente e vivíamos o amor como ele deve ser: fora da caixinha.


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