COMO ENSINAR UMA CRIANÇA A COMER CEBOLA

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Não sei a geração de hoje, mas no meu tempo, anos oitenta, o levantar de sobrancelhas do meu pai tinha um efeito dominador em mim e em meus irmãos. Ao receber a discreta (para outros) mensagem do seu rosto, nos encolhíamos feito lesma em contato com o sal. Qualquer movimento mais expressivo seria o passaporte para um longo e tenebroso castigo.

Dito isso, corta para uma segunda-feira qualquer na cozinha da minha casa, no interior de minas. Lá, estávamos eu, minha mãe e meus dois irmãos mais velhos almoçando sem a presença de nosso pai por conta de seu trabalho. Eis que chega à mesa uma salada de alface, tomate e cebola, causando em mim uma reação imediata e bem sonora: ‘Eca, cebola’.

Exatamente neste momento, como se fosse uma deixa de cena de um ator de teatro, surge meu pai que, aos meus olhos, tinha acabado de sair das profundezas cheio de fumaça cênica ao seu redor. Ali, com o coração na boca, eu já sabia que era o fim de uma infância sem traumas, pois o que estava por vir marcaria para sempre os meus seis anos de idade.

Após um ‘boa tarde’ pronunciado de forma bem seca, meu pai sentou-se lentamente na cadeira em frente à minha, do outro lado da mesa. Meus irmãos com sorrisinhos de canto de boca diziam baixinho ‘Tá fu-di-da’. Eu tentava disfarçar o climão olhando para o teto e evitando o contato visual com o patriarca, que a essa altura estava se servindo com todas as cebolas da salada. O que me fez pensar ingenuamente que ele não tinha me escutado, mas, a esperança esfarelou-se no mesmo instante em que ele me entregou o prato e disse ‘Eca é não ter um alimento, agora você vai comer todas essas cebolas para aprender a respeitar a comida’.

Orgulhosinha desde pequena, não fiz escândalo, não chorei e nem recorri à minha mãe, apenas empinei o meu mininariz e aceitei o castigo. O silêncio pairava no ar e eu ali, engolindo cada rodela de cebola – sem mastigar para não sentir o gosto – movimentando os lábios de forma bem teatral para fingir que eu as degustava sem o menor problema. Algumas rodelas eu joguei para o cachorro, outras escondi debaixo do prato e algumas na almofada da cadeira. Certa de que estava sendo super discreta. Com prato finalmente limpinho olhei para o meu pai como quem diz: ‘Viu, foi moleza’. Não foi, passei o resto do dia com balas de morango  na boca para esquecer aquele ardido do legume.

Na tarde seguinte, no auge do meu minisarcasmo, esperei meu pai chegar em casa para soltar ‘sem querer’ um exagerado ‘Eeeecaaaa, sorvete!’ na esperança de que receberia o mesmo castigo das cebolas.

Ai, debochada desde criança.


curta – http://www.cozinhasemfiltro.com.br  –  crônicas culinárias

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