NEM TODA MÃE COZINHA BEM

Mundo eu preciso fazer uma revelação bombástica: nem todas as mães cozinham bem. Você, o filho crescido, não precisa sofrer por nunca ter dito ‘saudades da comidinha gostosa da minha mãe’. Isso não quer dizer que você é ingrato, incompleto, infeliz, amaldiçoado ou que sua progenitora vale menos que as outras. Sabemos que há recursos: comidinha maravilhosa preparada pela empregada, pai, padrasto, tio, irmão, madrinha, padrinho, amigo da família, babá… Tá vendo? Os laços afetivos gustativos podem vir de outras fontes, quebrando de vez essa imagem cristalizada da mãe forno e fogão.

Como se não bastassem todas as preocupações de uma mãe, ainda querem incluir no pacote – mesmo nos tempos atuais – que ela também seja maravilhosa na cozinha. Como se o fato se ser mãe a tornasse automaticamente uma perita no assunto.  Às vezes elas são, e às vezes elas não são, e assim funciona a vida de ‘nem todo mundo é igual’. Quem sabe você, o filho crescido, não seja o talento na cozinha e faça surgir uma atmosfera gastronômica entre filho e mãe, contrariando a lógica e o tempo das coisas. Quem sabe ela não vai dizer ‘a comidinha gostosa feita pelo meu filho’.

O assunto surgiu em mim por conta dos programas de culinária que eu assisto. Em quase todos, os apresentadores recorrem à frase ‘comidinha da mamãe’ para descrever que o prato, ali apresentado, é delicioso. Lamento, mas para mim, por exemplo, a associação não remete a coisa boa. Minha mãe, como diria meu pai, é especialista em três tipos de comida: enlatada, congelada e queimada (quanto amor envolvido na relação desses dois, não é mesmo?). Mas tivemos a moça que trabalhou lá em casa durante anos e foi a responsável por todas as delícias dos meus tempos de criança. Cresci com as minhas próprias referências de refeições saborosas. Hoje, as comidas que nos remetem às boas lembranças denominam-se ‘confort food’, e essa sensação pode vir de vários estímulos, não exclusivamente das mães.

Eu sei, o mundo anda cheio de mimimi e parece que estou criando mais um. Será que estou mimimitizando as coisas? Não é a minha intenção ser uma mensageira de mimimi, jamais. Classifico isso aqui como uma troca de pensamento saudável.

E já que comecei, concluo, a ideia é que os apresentadores desses programas (ou qualquer pessoa) atualizem seus diálogos fazendo uso da expressão ‘com sabor de comidinha gostosa da infância’, deixando em aberto para que cada um defina a pessoa origem de sua recordação. Mães (atuais e futuras) livres e filhos à vontade. Um trauma a menos. Chega de conceitos enlatados.


curta – http://www.facebook.com/cozinhasemfiltro

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