PORQUE METADE DE MIM É AMOR E A OUTRA RIVOTRIL

criança

Ainda estou pensando na comemoração do ‘Dia das Mães’ de um prisma menos romântico e sem aquela overdose de florzinhas roxas da gratidão. Não, não é nenhuma rejeição à minha progenitora ou coisa que o valha. Mas é um medo que tomou conta de mim com uma antecipação bizarra, sendo o maior caso de ansiedade precoce já registrado por mim. E olha que eu levo uma vida orquestrada por picos de ansiedade e consumos clandestinos de Rivotril.

Não tenho filhos mas já sei que além do amor incondicional e fotos fofas nas redes sociais, a criaturinha vem com um combo de preocupações gigante. No entanto, uma aflição materna – em especial – tomou conta de mim ontem quando eu estava a caminho da casa da minha sogra para desfrutar o ‘Dia das Mães’. Tomada por esse pavor imaginário, resolvi deixar aqui registrado uma carta hipotética para o meu filho. Estou vazando essa mensagem de uma vez.

Querido filho, o que eu vou dizer pode parecer duro em um primeiro momento, mas necessário para a harmonia da nossa relação, lá vai: almoçar fora de casa no ‘Dia das Mães’ (ou qualquer outra data clichê que transforma o mundo em um TOC coletivo, com todas as pessoas fazendo a mesma coisa no mesmo dia), não é presente, é castigo, quase tortura. Não digo pelos outros, mas a mamãe aqui não tem civilidade o suficiente para ficar mais de meia hora na fila de espera de um restaurante cumprindo uma das etapas desse calvário: a espera do garçom, do prato, da conta, para pagar a conta, do estacionamento… (Só de listar já me deu taquicardia).

Sei das suas boas intenções e da pressão do mundo, no entanto, se a mamãe for para esse matadouro de almas estará sorrindo por fora – como fazem as boas mães – mas morrendo por dentro a cada minuto de permanência nesse lugar apinhado de gente, em um misto de falação de adulto, choro de bebê, garçons passando e pimpolhos se divertindo enfiando a cabeça dentro do aquário. Percebe que isso não é presente?

Filho, fica aqui combinado que no dia supostamente dedicado a mim, aceito de bom grado o colar feito com macarrão; o coração de cartolina completamente torto; o desenho (rabisco) da gente em família e o bilhetinho escrito em letras psicografadas ‘mamãe, ti amo’; tudo, menos enfrentar um restaurante neste dia. Combinado?

Filho, espero que entenda.
Porque metade de mim é amor e a outra metade Rivotril.


Curta – http://www.facebook.com/cozinhasemfiltro ~ crônicas culinária

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