MEU SAL NÃO É DO HIMALAIA

Todas as vezes que eu entro em um Hortifruti tento absorver por osmose aquele universo de gente aparentemente saudável e rica. Não estou falando de qualquer Hortifruti, e sim daqueles mais requintados que além das frutas, legumes e verduras vendem sal do Himalaia por R$25 um vidrinho com 200g. Lá, tem uma prateleira com pelo menos dez tipos de açucares. O azeite trufado é requisitado como se fosse óleo se soja Liza. Na seção de congelados não tem nuggets feliz da Turma da Mônica, e sim embalagens de lula, salmão e bacalhau sendo vendidos por três digitos tranquilamente.

É uma infinidade de coisinhas de comer que parecem que saíram da mesa de jantar de uma família abastada da novela das nove.  Dessas que os patrões sempre dizem para o motorista   ‘Fulano, prepara o carro que eu vou sair’ (nunca entendo, o que significa preparar o carro?).

Sigo observando essa população que toma banho com água de quinoa. As vestimentas variam entre roupa de malhar de marca, traje escritório de sucesso e o carioca casual, que mesmo com camiseta branca, jeans e Havaianas está digno de uma foto na Ilha de Caras. Acho que é a pele, nunca está suada e carrega um frescor ‘acabei de sair do banho’.

A seção de hortaliças é diferenciada e possui um ar condicionado exclusivo e um ‘personal borrifador de águas’ que passa a cada vinte minutos para deixá-las molhadinhas e verdes. No supermercado comum – coitadas – não existe esse tratamento de realeza, elas ficam em um canto qualquer até murcharem sem aviso prévio.

Outra constatação: a cada dez carrinhos que passam por mim, em pelo menos oito deles contém uma garrafinha de um litro de água de coco que custa R$15.  A dona de casa classe média que habita meu corpo já faz os cálculos: ‘Com esse valor compro três frutas diferentes e faço uns quatro litros de sucos naturais deliciosos’. E era exatamente o que eu tinha ido fazer ali, comprar frutas e couve (suco com couve sob o título de detox ainda é sinônimo de saúde ou isso é muito 2014?).

Ficar observando tudo isso foi o mecanismo que encontrei para não morrer de inanição na fila do caixa que, neste caso, é demorada como em qualquer lugar independente da classe social.  Eu sempre sofro. A minha criatividade estava se esvaindo e um suor frio já anunciava um desmaio quando ouço ao longe, com um sotaque bem forte: ‘Próooximo’. E lá vou eu fazendo cara de quem toma água de coco com sal do Himalaia, vestindo uma camisa surrada, estampado a frase ‘lembrança de Cabo Frio’, shortinho do tempo da internet discada e um chinelo do Minions.  Quanta riqueza.

 

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