O AMOR PODE ACABAR POR CAUSA DE UM STROGONOFF

Foto/reprodução – Celeste Giuliano

Relacionamentos terminam por inúmeros motivos, e o da minha tia chegou ao fim por causa de um strogonoff de carne.  Ela tinha 27 anos, na década de 70, quando conheceu um cara super bacana, já na casa dos 30. (No começo todo mundo é bacana e está com o seu melhor filtro). Eles fizeram todo aquele combo ‘estamos nos conhecendo melhor’: cinema, jantar, passeios, sorvetes, parque, roda gigante. Os encontros eram marcados por dias ensolarados e passarinhos cantarolando. Quase um mês depois desse ritual mágico, já tinham trocado confidências e percebido similitudes. O romance avança e ela o convida para jantar em sua casa.

No cardápio, o queridinho da época: strogonoff de carne acompanhado de arroz branco e batata palha. Minha tia estava com seu melhor vestido e havia usado louças novas para ocasião. Ele, chegou de um jeito mais despachado do que o habitual assumindo uma postura ‘já temos intimidade’. Ela estranhou um pouco  mas  o serviu delicadamente e sentou-se à mesa para admirá-lo. Em seguida, sem nenhuma cerimônia, ele resolve desabafar: ‘ Ahhhh, prefiro comer em casa a restaurantes. Assim, a gente pode mexer a comida e misturar tudo bem juntinho (fazendo movimentos circulares no prato envolvendo todos os ingredientes que mais pareciam uma massa de bolo), e ainda por cima (continuou) ficamos livres para comer sem frescuras, posso usar a colher em paz (a essa altura estava falando de boca cheia com o creme de leite grudado no cantinho do lábio).

Minha tia olhou tudo aquilo – e viu seu príncipe encantando se desconstruindo lentamente até se transformar em um homem das cavernas – e em seguida simulou uma dor de estomago fortíssima como desculpa para dispensá-lo.  Prometeu ligar no dia seguinte, mas rasgou o seu cartão.  Nunca mais se viram.  Nos anos 70 ainda era possível sumir, não tinha internet.

Minha tia telefnou para a melhor amiga e disse: ‘amiga, homem que come feito cavalo no cocho é tão broxante quanto transar de meia. Não dá’. Esse strogonoff foi nosso fim. Ou melhor, o nosso ‘não começo’.

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