PEDAGOGIA GASTRONÔMICA

morango

Quem sou eu nos anos oitenta aos seis anos de idade? Uma criança extremamente gulosa que comia o tempo todo até sair pelos ouvidos.  Minha mãe tentava disfarçar o desgosto dizendo que eu estava em fase de crescimento, mas todos percebiam que se tratava de um caso crônico de ‘olho grande’, como se diz em Minas.

Eu poderia ter acabado de comer um javali mas se alguém aparecesse na minha frente com um sanduíche, eu pedia um pedacinho, fazendo cara de refugiado da África. A minha fama de draga se espalhou por toda família, principalmente na casa da minha avó paterna, em Belo Horizonte, onde passávamos o Natal. Tios, primos, vizinhos, faxineira e cachorros já sabiam que nesta época do ano a ‘parente que passava fome em casa’ estaria por lá.

Biscoitos, guloseimas e demais comidas eram trancadas em despensas especiais. Minha avó, que mais parecia um general de uma tropa de soldados soviéticos, dizia que era falta de educação por parte dos meus pais. Que ela mesma daria uma correção em mim. Uma das táticas foi me fazer comer tudo até chorar quando eu repetia qualquer refeição: almoço, lanche ou jantar. O efeito desse castigo era passageiro e eu seguia exercendo com louvor o meu ofício de Magali, ostentava cada vez mais o título de ‘essa menina é magra de ruim’.

Um dia, eu estava na horta/pomar no quintal da casa dessa minha avó. E claro que meu espírito devorador avistou um brilho vermelho e hipnotizante vindo do pé de qualquer coisa.  Eu morava em apartamento e nunca tinha visto pessoalmente algo antes de ser colhido. Quando eu apontei o dedo para a guloseima, fazendo cara de pedinte, a minha avó, mais que depressa, revelou que eram morangos em fase de crescimento. E eu quis um, claro. Para a minha surpresa ela deixou que eu escolhesse. Peguei o morango mais carnudo do galho e dei uma generosa mordida nele, e depois disso eu senti a minha alma se desprender do corpo e vagar pelo inferno a ponto de dançar na boquinha da garrafa com o capeta.

Quando o meu espírito voltou dessa micareta com o diabo, eu estava espremida dentro de um tanque de roupas, bebendo água da torneira sem parar como se eu tivesse comido carvão em chamas. Eu suava, chorava e coçava os olhos ardendo, tudo ao mesmo tempo e com a cabeça rodando. A minha avó observou todo meu processo de exorcismo sem esboçar nenhuma piedade. E, somente quando eu comecei a respirar e a enxergar minimamente bem, ela disse pausadamente: ‘Você comeu uma pimenta dedo de moça. Isso é para você aprender a não ser gulosa’, e saiu esboçando uma feição discreta de vitória com um sorriso de canto de boca maquiavélico.


PRIMEIRA VEZ NO BLOG #COZINHASEMFILTRO? NAVEGUE MAIS E DESCUBRA  COMO ATO DE COZINHAR PODE MUDAR SUA RELAÇÃO COM O TEMPO, SABORES E INGREDIENTES. 

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