SELF-SERVICE, A ANTESSALA DO INFERNO

self service

Um dos incentivos para eu começar a cozinhar de maneira mais investigativa, ampliando as opções de sabores, foi a minha repulsa pelos restaurantes self-service. Para mim, esses lugares são uma espécie de antessala do inferno.
Neste domingo, a contragosto, tive que encarar o dito cujo.
Minha feição de integrante da Família Adams denunciava o meu desgosto por estar ali.
Entro na fila dos horrores para tentar fazer o meu prato.
A moça da frente grita: ‘filha, corre! Tem bobó de camarão. ’
A essa altura o bobó era de perdigotos
Do outro lado tem uma senhora.
Ela avalia cada pedaço de frango grelhado e faz uma resenha falada.
Dá-lhe mais perdigotos
Corro os olhos para a área das saladas
Mas não quis interromper o papo animado de duas amigas em cima da alface
Só me resta a seção de carnes na chapa. Vamos entupir as artérias
Prato na mão. Hora de sentar.
Só vejo cabeças e mais cabeças.
Busco com os olhos um lugar vazio para dois, e nada.
As bocas deveriam estar cheias.
Mas ouço um monte de gente falando loucamente ao mesmo tempo.
Eu já estava ensaiando um desmaio quando…
Achamos!
No final do extenso restaurante havia uma mesa para dois.
Coladinha em um imenso aquário.
Que delícia. Dizem que é relaxante.
A pseudo paz é cortada com um grito em sustenido maior:
‘Olha mamãe, peixinhos!!!’
Engasgo com o pedaço de carne.
Aparecem outros minipulmões potentes gritando pelos peixinhos.
O arrastão sonoro durou dois minutos e depois passou.
Voltamos ao barulho ambiente
Sigo tentando comer e superar tudo aquilo
Eis que, na mesa ao lado, levanta um mensageiro do Demônio.
Sinto cheiro de enxofre
O enviado do Tinhoso lança a maldição: ‘Pa-ra-béns-pra-você’…
São as trombetas do apocalipse
Centenas de pessoas hipnotizadas cantam juntas.
Enfiei a carne inteira na boca. O amado, a sua comida japonesa.
Pagamos a conta ainda mastigando
Saímos correndo como se estivéssemos em uma maratona
Cruzando a porta de saída ainda era possível ouvir
‘Com quem será? Com quem será?’…
Eu tinha me esquecido que o sofrimento poderia ser ainda maior.
Afinal, era domingo, dia universal do ‘Vamos almoçar fora’.

Primeira vez no blog #cozinhasemfiltro? Navegue mais e descubra  como ato de cozinhar pode mudar sua relação com o tempo, sabores e ingredientes.
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