CEBOLAS, CHORAR OU NÃO CHORAR, EIS A QUESTÃO.

cebolas

Foto/reprodução GBarbosa

Se tem um assunto que rende papo é o dilema gastronômico: cortar cebolas sem chorar. Você pode abandonar o constrangedor ‘Será que vai chover hoje’ e começar a aplicar as variações de: ‘Nossa, estou com os olhos ardendo até agora de tanto cortar cebola’. Pronto, a partir de uma simples frase surgem peritos culinários com suas técnicas que prometem apaziguar de vez sua relação com esse vegetal.

Fiz o teste, não das técnicas, mas da abordagem do tema. Aproveitei um silêncio na cozinha da sogra, uma animada senhora de 74 anos, e coloquei o tópico em discussão. Mais rápida que o cair de uma lágrima, a especialista já foi logo gabaritando: ‘Você tem que acender um palito de fósforo, deixar queimar um pouco, apagá-lo e depois colocá-lo na boca. A metade queimada. Sem encostar na língua. Mantém lá durante o manuseio da cebola. Feito isso, nada de chororô na cozinha’. Ouvi o passo a passo com atenção, tentando camuflar minha expressão que denunciava o quanto achei a teoria bizarra. Mas vou experimentar um dia (eu juro).

Dando sequencia à minha estranha tese (a de romper o silêncio colocando a cebola em pauta), lá estava eu no salão de beleza, sentada em frente à manicure quando a fiz sorrir, que ironia, falando de cebola. Ela estufou o peito e assumiu uma postura de ‘ah, essa é moleza’, e partilhou o seu legado para quem quisesse ouvir: ‘Basta você cortar a cebola com a faca molhada. Entre uma passada e outra, você molha a faca’.

A cliente ao lado (sempre tem alguém ouvindo a conversa alheia no salão) logo se interessou pelo diálogo e se tornou nossa melhor amiga de infância em três segundos (não disse que o assunto é uma espécie de feromônio?). Com tinta de cabelo escorrendo pela testa e o pé de molho em uma bacia, a dona de casa fez, ali, a revelação que derrubou todos os outros caminhos: ‘Basta você usar óculos de grau enquanto corta a cebola e pronto, você não chora’. A atendente que estava do outro lado do ambiente completou: ‘Minha mãe usa uns óculos de natação. Parece que funcionam’. Aí a prosa tomou conta do recinto em uma união linda ocasionada por uma simples cebola. Ouvi de tudo um pouco. Até o uso de um capacete apareceu como sugestão. Ri bastante (inclusive, anotei receitas com a protagonista cozida de forma diferente).

Já em casa, olhando para a cebola, não coloquei nenhuma das teorias em prática e comecei a chorar, cortando-as. Acho que no fundo ninguém quer cessar essas lágrimas inconvenientes. De um jeito torto, elas atestam sua dedicação no preparo de um prato. E na vida, elas povoam a criatividade de muita gente que jura exterminá-las com soluções mágicas. Preferi ficar no imaginário deixando em aberto a dúvida: é possível cortar cebolas sem chorar?


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