QUAL O SABOR DA SUA INFÂNCIA?

Biscoito

Foto/reprodução google

Nos anos oitenta no interior de Minas, o Senhor Paulo, dono de uma padaria que ficava na esquina de um colégio, atendia todos os dias um casal de irmãos: ela com sete, e ele com oito anos. Apareciam por lá sempre no mesmo horário, às cinco e quinze da tarde após o final da aula.

Magrinhos feitos palitos de dente e engolidos por mochilas que mais pareciam barracas de camping, corriam os olhos agitados na vitrine onde estavam expostas as guloseimas. Quando o sorriso – faltando um dente na frente – tomava conta de seus rostos, era um sinal de que o alvo tinha sido encontrado.  Animados e quicando sem parar – como fazem as crianças – pediam juntinhos: ‘Seu Paulo, me vê um pedaço de Pudim de Pão’, erguendo em seguida os braços e mostrando as mãos cheias de moedinhas, no valor exato. Mal alcançavam o balcão.

A generosa fatia era dividida milimetricamente entre os dois e consumida em segundos. Paulo se espantava como aquelas crianças, tão franzinas, engoliam aquele pão massudo sem a ajuda de nenhum liquido. Os pedaços desciam goela abaixo a seco e, mesmo assim, eles ficavam felizes como se estivessem em um banquete real. Depois, aguardavam a chegada dos pais.

No dia seguinte, o mesmo ritual: aula, padaria, Pudim de Pão e volta para casa. Eles até poderiam brigar – como fazem os irmãos – mas o pacto do Pudim de Pão era sólido tal qual a sua massa. Mesmo estando ‘de mal,’ mantinham o compromisso de juntar as moedinhas e partilhar o quitute depois da aula. Essa comunhão aconteceu todos os dias pelo período de um ano. Depois, mais crescidos e ainda no mesmo colégio, foram descobrindo outros sabores. Fizeram outras parcerias na partilha de suas guloseimas. Seguiram irmãos, mas cada um com seu novo amor gastronômico.

A menina da história sou eu. Hoje, não como mais Pudim de Pão e nem divido uma rotina com o meu irmão. Faz tempo que a gente não ‘junta moedinhas’. Ontem, passei em frente a uma padaria e vi o danado do Pudim de Pão. Não era tão bonito como do Senhor Paulo. Talvez nem o dele fosse. Mas bateu uma saudade salutar da infância. Lá, onde estão os aromas, sabores e texturas de uma época em que brincar e comer coisas gostosas eram nossos únicos compromissos.


Qual o sabor da sua infância? Conte-nos sua memória afetiva envolvendo algum prato ou guloseima.
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