POR QUE VOCÊ COME TAPIOCA?

tapioca

Por que você come tapioca? Pelo mesmo motivo que você comprou (ou quis comprar) um livro para colorir. Porque estava todo mundo colorindo alvoroçadamente sob a justificativa de que a atividade nos aliviaria do estresse. O mercado sempre ávido de novidades não deixou por menos. Tinha livro para colorir sendo ofertado em todos os cantos e, pasme, foi a “obra literária” mais vendida em 2015. Quem lucrou mesmo foi a Faber Castell e seus genéricos.  Nunca se vendeu tanto lápis de cor fora do período escolar e para adultos. Foi uma febre. Mas acabou. E você não passou do quarto desenho do livro, doou tudo para uma criança e continua estressado.

Mas e a tapioca? Creio que segue quase o mesmo princípio. A gente come porque de repente só se fala nisso e na possível enxurrada de benefícios desse alimento tão ancestral e agora tão contemporâneo. Disseram que ela é fit, natural, magra… “Ela não anda, ela desfila, é top, capa de revista”. E você, eu, nos tornamos “tapioqueiros” levados pela multidão, feito folião esmagado em bloco de carnaval – “Levada louca… levada louca… levada louca pra dançar”. A Giovanna Antonelli come tapioca, deve ser bom mesmo (meu lado mais vulnerável do cérebro se justifica). E dá-lhe barraquinhas de tapioca por todos os cantos. Só na minha rua tem quatro. Sempre cheias. Quanta gente saudável!

Às vezes no silêncio da noite, ao invés de ficar imaginando nós dois, eu reflito sobre coisas da vida. E foi a vez de me questionar: porque mesmo eu estava comendo tapioca? Resolvi pesquisar sobre o tema com fontes seguras, dedicando horas na leitura de várias matérias e artigos. E a conclusão replicada por vários especialistas me tirou o sono de vez: a TAPIOCA não é essa rainha toda. O benefício mais evidente da goma de mandioca é que ela não contém glúten, tornando-se uma ótima opção para os celíacos (alérgicos a glúten). Vale lembrar que, segundo os estudiosos, não há nenhuma pesquisa cientifica que comprove que o glúten deva ser extirpado do cotidiano de quem não é alérgico a ele.

Há quem defende que o glúten – proteína do trigo – é a responsável por deixar o organismo inflamado e propenso a acumular gordurinhas. Mas essa questão entra em outra discussão.

Voltando à minha checagem, na disputa tapioca versus pão francês, ninguém ganha, dá no mesmo comer um ou outro (exceto para os celíacos). Já tapioca versus pão integral, o segundo ganha de lavada. Sim! De acordo com a grande maioria dos nutricionistas, é melhor comer pão integral a tapioca.

A tapioca é um carboidrato simples, sem fibras e pobre em nutrientes. Além disso, possui alto índice glicêmico (semelhante ao pão branco). Isso quer dizer que quando você come uma tapioca, ela se transforma rapidamente em açúcar no sangue, o que tende a favorecer o acúmulo de gordura. Mas é uma boa opção de lanche pós–treino.

E para quem gosta de falar em calorias (não é o meu caso), há especialistas que afirmam que a tapioca, sem recheio, pode se igualar a uma fatia de pão, dependendo da quantidade que você usa no preparo (recomenda-se duas colheres). E o recheio pode tornar tudo mais calórico, porque, diferente do pão, você não come uma tapioca só com manteiga.

Então a tapioca é ruim? Não, dependendo da marca e da origem, é um produto natural, sem conservantes, livre do excesso de sal, açúcar e gordura e merece respeito, principalmente para o controle do colesterol e hipertensão. Não contém glúten, como já falamos, o que é bom para os celíacos (alérgicos a glúten). E é possível atenuar o índice glicêmico acrescentando fibra na sua receita.

O que eu entendi nessa minha varredura é que a tapioca não é essa salvação toda e muito menos uma aliada para quem quer emagrecer ou comer mais saudável. É apenas uma opção extra de alimento a ser consumido com muita cautela. Assim como o pão branco. Só. Sua ascensão é mais comercial do que qualquer outra coisa. É o novo livro para colorir.

Eu passei a consumir tapioca ludibriada por sua imagem nutricional ilibada, principalmente na errônea disputa com o pão branco. Agora, vou voltar para o bom e velho pão integral (leia sempre o rótulo da embalagem para certificar se os ingredientes utilizados são integrais mesmo), com suas fibras, proteínas e vitaminas. E quer saber? Um pão torradinho com manteiga tem seu lugar. Se bater saudade, como tapioca também, mas sem idolatria.


O texto acima foi baseado em inúmeros artigos e matérias respaldados por nutricionistas, no qual compartilho os links abaixo.  Em caso de dúvidas sobre o consumo de tapioca e a finalidade dela em sua dieta, procure o seu médico. Minhas palavras propõem uma reflexão sobre modismos gastronômicos e não devem ser levadas à risca para a sua rotina. Estou aberta a ouvir orientação de outros profissionais da saúde sobre a tapioca e sua fama.

Links:

http://revistagloborural.globo.com/Noticias/noticia/2015/06/trocar-o-pao-por-tapioca-faz-bem.html

http://www.alinedeandrade.com.br/tapioca-mitos-e-verdades-por-tras-da-moda/

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/03/tapioca-ou-pao-frances-nutricionista-explica-o-que-e-melhor-para-dieta.html

http://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/saude-e-bem-estar/saude/tapioca-engorda-tanto-quanto-o-pao-frances/

http://marinastrazzer.com.br/tapioca-ou-pao/

http://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2015/07/27/noticias-saude,187271/apesar-de-saudavel-tapioca-deve-ser-consumida-com-atencao.shtml

http://www.oncomedica.com.br/noticias/o-que-e-que-a-tapioca-tem,41070

http://www.joaopaim.com.br/2016/07/posso-substituir-o-pao-pela-tapioca/

http://www.otempo.com.br/interessa/moda-fitness-tapioca-%C3%A9-reprovada-em-testes-1.1364496

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PAULO, O SORRISO QUE DÁ CERTO

Paulo o padeiroEm tempos de “se nada der certo” lembrei-me de Paulo, o padeiro do hortifruti do Flamengo. Um rapaz jovem cheio de alegria e alto astral. Maneja as fornadas de pão francês, bolos, pão de queijo e broa de milho com a destreza de um artista circense.

Acho que é bem assim que ele se sente, um pop star no palco sendo admirado por uma legião de fãs. O palco é a padaria e a plateia acompanha sua apresentação pelo vidro transparente. Mas pode-se quebrar a quarta parede e conversar com o artista em questão. Ele adora, e está sempre de olho nas necessidades do seu cliente\público. Se você chega lá, no gargarejo, faltando 10 minutos para a próxima fornada de pão de queijo, ele logo avisa, feliz por ser o portador da boa notícia. É um honra para ele quando você leva para casa o pão fresquinho.

Quando juntam três ou quatro senhorinhas para perguntar sobre as guloseimas do dia, ele estufa o peito como se fosse o cantor Roberto Carlos prestes a beijar uma rosa e jogar para a multidão enlouquecida. Fala de suas criações com gosto, vontade, prazer. Sempre sorrindo. Orgulhoso. Nasceu para estar ali e fazer o que faz bem feito. O reflexo disso está no sabor do seu pão de queijo ma-ra-vi-lho-so e nos frequentes elogios de seus admiradores. É o tempo todo alguém dizendo “Esse menino é atencioso”, “Esse menino é uma graça”…  Não me espantará se um dia alguém pedir uma selfie com ele. Acharei justo e coerente.

Em uma das vezes que estive lá, segui o coro dos fanáticos e comentei com ele: “Dá gosto ver você trabalhar com esse sorriso, sabia¿” Ele respondeu como quem já está acostumado a dar entrevistas à imprensa sobre o seu ofício: “Gosto do que eu faço e não tenho nada para reclamar. A partir do momento que estou feliz aqui, preciso passar isso para os meus pães e para quem compra” E dá-lhe sorrisão.  E dá-lhe fornada de pão de queijo quentinho saindo. Comprei até mais do que precisava depois dessa resposta\lição.

Já sou do time de tietes do Paulo. Sempre que vou ao hortifruti, meu primeiro local de parada é na padaria, pelo pão delicioso e pela alegria deste jovem. Uma felicidade plena que destoa do resto do ambiente, cheio de pessoas “que deram certo” e que estão sempre com o semblante carregado, ansioso, inquieto. Pessoas que vagam pelos corredores sem contato visual, com a cabeça enfiada no celular de última geração curtindo as postagens de outras tantas pessoas “que deram certo”. Se levantassem um pouquinho só a cabeça, veriam o sorrisão do Paulo e mudariam um pouco essa rotulagem mesquinha sobre quem “deu ou não certo na vida”.

MEXERICA DEIXA AS PESSOAS MAIS JOVENS

MEXERICA

Ei, rapaz da seção de mexerica, seu louco! Quero dizer-te que depois de ontem à noite te elegi o funcionário do mês… do ano… da década… lá do hortifruti . Na saída, deixei na caixinha de sugestões um pedido – por favor, aumentem o salário do Anderson – sim, eu vi o seu nome no crachá para nunca mais esquecer. Você é o meu mais novo crush da autoestima.

As palavras têm poder, meu caro, e você cavou isso para ti, enquanto arrumava tranquilamente a sua bancada de mexericas. Você estava enfileirando cuidadosamente cada fruta retirada de uma caixa empilhada em outras cinco caixas, quando me aproximei. Você não vai se lembrar de mim, eu estava com um vestido vermelho decotado e segurando uma rosa branca na boca – mentira! Eu estava com o meu traje mendigo habitual para fazer compras.

Faz tempo que desisti de parecer rica no hortifruti apinhado de gente rica de fato. Até porque, não é só o que eles vestem (e ganham) que os tornam ricos, é como a pele deles se comporta em sociedade. É uma pele que não apresenta o brilho oleoso classe média que nós temos. É uma cútis sempre saudável e com um degrade entre o fosco e o brilho na medida certa mesmo que tenham caminhado por cinco horas no deserto.

Então, nem que eu chegasse apinhada de swarosvski emprestado de uma amiga abastada, adiantaria. A raiz do cabelo e a testa reluzindo sebo já entregariam meu ordenado do mês. Desencanei! Frequento o espaço conformada de que no meu carrinho jamais entrará azeite trufado. Prefiro aplicar tamanho investimento de outra forma.

Mas, voltando a nós, – olha a intimidade!

Quando encostei meu carrinho próximo à sua gôndola, no rádio do hortifruti tocava bem baixinho aquela música da Daniela Mercury: “Quando não tinha nada, eu quis\ quando tudo era ausência, esperei\ quando tive frio, tremi\ quando tive coragem, liguei…”

Ao perceber o seu cuidado em organizar a bancada, resolvi pegar as mexericas que estavam na caixa, para não te atrapalhar. Já com a mão em uma das frutas – mostrei que sou classe média, mas sou educadinha – te pedi licença. E você, mantendo o seu ritmo de trabalho – pega uma fruta, enfileira, volta, pega outra – respondeu, respondeu não! Soltou a magia pelo ar – “Fique à vontade, JOVEM” – de novo em câmera lenta – “Fi-que-à-von-ta-de-JO-VEM”.

Nessa hora o volume da música subiu e a Daniela Mercury cantou em plenos pulmões “Quando vi vooooocê me apaiiiixoneiiii…” O meu nirvana era tanto que pude visualizar os clientes, caixas, gerentes e demais funcionários cantando junto e balançado os braços no alto para um lado e para o outro… “Ohhhh Amarazáia zoê, záia, záia, a hin hingá do hanhan…”. Foi lindo!

Fiquei ali na sua frente, congelada com a mexerica na mão, não queria nunca mais sair daquele espaço onde, com a sua palavra, abriu-se uma fenda no tempo em que eu ainda era de alguma forma jovem. É como se você tivesse me resgatado do tenebroso “vale das senhoras”, um submundo austero, frio, cinza, onde vagam pessoas que estão bem longe da terceira idade, mas que perdem suas forças ao ouvir diariamente “senhora… senhora… senhora”.

Um dia quero ser uma senhora linda – tipo Fernanda Montenegro – e ostentar minha trajetória de vida orgulhosa! Mas por ora, ainda pretendo desfrutar mais um pouquinho do “jovem” ou “senhorita”. Já falei, não há empoderamento que sustente um “senhora” à queima roupa todos os dias.

Você acabou o seu serviço, foi embora e eu fiquei mais alguns segundos fora do ar, certa de que mexerica rejuvenesce. Levei dois quilos!

CARTA ABERTA À MINHA VIZINHA

vizinha

Ô vizinha do andar de baixo, minha querida, você não sabe, mas tens mexido com os meus instintos nos últimos tempos. Em pleno domingo ensolarado e com temperaturas amenas em terras cariocas, a senhora escancara pelos ares o aroma de um refogado per-fei-to!? Um perfume inebriante de cebola e alho tostados no azeite, que invadiu a minha cozinha no momento em que eu estava olhando para a porta da geladeira aberta e vivendo o maior dilema existencial da humanidade: “Não tem nada para comer”, dos mesmos criadores de “Eu não tenho roupa para sair”.

Outro dia, a senhora jogou ao vento a fragrância de bolo de laranja assando, justo em um fim de tarde chuvoso, isso é GOLPE, minha cara. Saiba que mesmo sem ter visto o resultado, já o imaginei redondo, fofinho, alto e saindo fumacinha ao ser partido em generosos pedaços. Daqueles bolos que a gente come quente mesmo, porque não aguenta esperar esfriar, e refresca a boca com um copão de leite gelado depois. Pois é, fiz toda essa cena na cabeça só com a essência  que tomou conta da minha casa… “Deu onda… fazer o que?“

Saiba que panela de pressão chiando, leiteira apitando e cheiro de bolo assando são afagos na minha alma. É um transporte imediato aos tempos de criança, aos tempos de proteção contínua. É como se esses elementos sonoros e olfativos me dissessem na infância, “Olha, está tudo bem, tem um adulto ali na cozinha, você está amparada”.

Cara vizinha, eu te conheço, já esbarrei com a senhora e seus efusivos cabelos vermelhos no elevador. Sei que mora sozinha e que faz todas essas iguarias para o seu bel prazer. Um bolo todinho só para você! Isso é a comprovação de que a idade traz sabedorias!

E pelo visto a senhora não é diabética mesmo, porque ontem, mais uma vez, seduziu o meu olfato com suas prendas culinárias. Eu estava no computador quando uma brisa me trouxe o preparo de um doce de banana caramelizando. E foi certeiro: fechei os olhos, respirei fundo e senti o bálsamo de doce de banana caseiro borbulhando na panela! É… “Não está sendo fácil…”

Fiquei acompanhando a evolução do seu preparo pelo perfume adocicado, hipnotizada… Ops, peraí, parece que está passando do ponto. O aroma está mais forte! Começo a torcer internamente para a senhora desligar o fogo… Mas nada… Se queimar o fundo amarga todo o resto. E não sei por que, imaginei uma panela grande, farta e perder tudo isso seria uma tragédia marcada pelo cheiro ardido de comida esturricada.

No rompante, debrucei o corpo na janela da minha cozinha e gritei – sim, era eu: “Queima não… Queima não…” com uma entonação à moda Cléber Machado e o seu emblemático bordão “Hoje não… Hoje não…” Uffa! Valeu o berro! A senhora salvou o doce e garantiu o primeiro lugar no pódio.

Eu falei que tens mexido com meus instintos, né? Tanto que… Eu confesso… Fiz cogumelos Paris salteados hoje e levei a frigideira fumegando para perto da janela, só para te desestruturar! A senhora Sentiu?

A ‘GRATIDÃO’ ESTÁ SOFRENDO

sofrendo

Olá, eu sou a gratidão e venho por meio desta dizer que estou de saco cheio do uso excessivo de minha pessoa sem o menor sentido e respeito. Encontro-me no meu quarto escuro, deitada na cama em posição fetal, chorando e me perguntando repetidamente onde foi que a minha vida chegou a essa banalização desenfreada.

Ora, qualquer vocábulo deseja ser reconhecido, mas por real necessidade e não apenas para ganhar uma mídia barata. Os tempos são outros, eu sei, mas no momento não estou sabendo lidar com a carga de trabalho que envolve milhares de pessoas me acionando diariamente quando postam fotos em suas redes sociais com uma barca de comida japonesa seguida da hashtag “gratidão”. Eu nem gosto de japonês. Vivo de luz. E onde eu entro nessa negociata, minha gente, gratidão de que? Nem pense em dizer a “Deus” porque, né! Acho que não é do feitio dele dar plantão em restaurantes.

Homenageie o cartão Visa ou Mastercard, esses sim são uteis para a sua façanha. Aliás, a dobradinha gratidão e foto de comida pegou forte! E dá-lhe minha presença do ladinho da coxinha, da pizza, da taça de sorvete incrível, do brownie, do mate na praia, da empada ressecada da esquina de casa… É muita terapia para entender como eu, do nada, virei acompanhamento gastronômico.

Eu não aguento mais acordar e ver minha figura atrelada a selfies – de gosto duvidoso digam-se de passagem- no Starbucks, no espelho do elevador, na academia… Gente, eu posso mais que isso, tá! Não gastem meus predicados nesses momentos, não, por favor! Sejam felizes fazendo seus autorretratos – tudo bem – mas, cara, na boa, não põe isso na minha conta, eu imploro.

Sinto-me um artigo que caiu no gosto popular e está sendo vendido aos montes em qualquer camelô. “Moço, quanto custa essa gratidão pendurada aqui”. “R$2”. “Ótimo! Vou levar três só porque está barato e a personagem da Giovanna Antonelli está super usando na novela das nove.”

Ah, sério, honrem a minha história, a minha definição no dicionário! Prefiro acreditar que os tempos analógicos e menos imediatos ainda existem. Quero ouvir meu nome proferido quando a situação pede: uma pessoa ajuda a outra em um momento importante de sua vida e ao final da experiência – boa ou ruim-, elas se abraçam e externam tamanha gratidão.

É isso! Eu sei que estou sendo útil, de fato, quando me sinto grande dentro de alguém. Tá! Pode externar essa gratidão em forma de textão, hashtag, foto… Mas só quando essa grandeza preenche você de verdade. De resto, não passo de mero enfeite, modismo.

No mais, pensem, só quero uma gratidão mais raiz e menos Nutella.

Atenciosamente,
Gratidão.

#gratidão

 

ESSA GERAÇÃO “CRUSH”

Você aí deslizando seus dedinhos em um dispositivo eletrônico, vendo vidas perfeitas passando na sua timeline com aquela overdose de gente feliz que curtiu o final de semana à vera. Você aí, olhando para os seus pais (ou qualquer pessoa) quase quarentões e se perguntando no alto do seu mundinho digital como era a infância deles sem internet.

Eu vos digo, através de um episódio isolado, como era. Sem a segregação familiar ocasionada pelos “wifis” e “4Gs” da vida, os irmãos, pasmem, tinham que conviver e resolver suas diferenças no tête à tête, sem essa de “unfolow”, de” block”, de “deslike”, de “fulano saiu do grupo da família” e o escambau. Uma relação mais raiz e menos Nutella.

Eis que meus irmãos, com nove e doze anos, iniciaram uma briga por conta de um pacote de biscoitos, mais precisamente pelas rosquinhas da marca Mabel. Para você ver como era a vida analógica. E nessa de… “O pacote é meu, não, é meu, nãaaaao… mãeeeeeeee olha fulano pegando minhas coisas”, a embalagem rasgou ao meio, voando biscoito para todos os cantos da imensa sala de um apartamento no interior de Minas.

E como tudo nos anos 80 parece roteiro de filme, o nosso pai chegou bem naquele instante, como se uma rosquinha caísse em câmera lenta nos seus pés, na porta de casa, instaurando o silêncio profundo.

Segurando sua maleta de trabalho, o patriarca avaliava a cena: duas crianças descabeladas, imóveis, cada uma com um pedaço da embalagem nas mãos e milhares de rosquinhas em volta.

Os irmãos se olham, não são mais rivais, eram cúmplices na bronca que estava por vir. Irmãos podem estar em guerra, mas quando sabem que estão encrencados juntos são de uma parceria bonita de se ver.

Meu pai senta no sofá, que também está apinhado de biscoitos, e pergunta olhando para aquelas duas criaturas apavoradas “Gostam da rosquinha Mabel?” Ambos balançam a cabeça em um “siiiiim” exagerado.

Pausa dramática. Meu pai se levanta, sai de casa e volta, segundos depois, com mais de 50 pacotes da “rosquinha da discórdia” nas mãos.

Meus irmãos se animam, vislumbram uma vida cheia delas até o final do ano. Mas, estamos nos anos oitenta, “migles”, a pedagogia dessa época não era a de “biscoitos da sorte”. O meu pai colocou todos os pacotes no meio da sala e disse em tom de correção: “Só saiam daqui quando comerem to-dos e-sses bis-coi-tos até o fim”. A frase poderia ser um meme engraçadinho que viralizou nas redes, mas não, era uma ordem real.

Começam a comer, meio que empolgados, achando engraçado, mas depois do primeiro pacote estavam em prantos, tipo aquele emoticons chorando exageradamente. Aí você pensa: ”Eles poderiam ter se levantado e ignorado as ordens”, repito, eram anos oitenta, meus caros, geração do “Meu pai só me olha”.

Passaram o dia todo no castigo, entre choro, pedidos de socorro para mãe, biscoitos goela abaixo, sem água e com casos de ânsia de vômito (isso é pesado, eu sei). Depois de horas de penitência, os irmãos se tornaram os melhores amigos e no final das contas estavam armando estratégias para eliminar mais rapidamente os pacotes (esconderam debaixo do sofá, jogaram pela janela, deram para o gato).

Nosso pai apareceu no final da tarde para a derradeira lição de moral, pois é, tinha disso! “Irmãos brigando por causa de comida é muito feio, espero que tenham aprendido, estão liberados”. Correram para a cozinha para beber água.

Eles nunca mais brigaram – por causa de comida – mas por milhões de outros motivos, sim. Partilharam outras tantas lições e correções. Cresceram. Estão vivos e ainda comem rosquinhas.

E você aí, achando que o pior castigo é quando o seu pai corta a sua internet. Ah, essa geração “crush”.

MINHA PÁSCOA… MEUS TRAUMAS…

Resultado de imagem para ovos de páscoa quebrados

Meus olhos brilharam quando a minha avó materna chegou lá em casa, numa manhã de quinta-feira, para me perguntar de um jeito estranhamente dócil o que eu preferia como presente de páscoa: Ovo de chocolate ou caixa de bombom?Certeira, no auge dos meus seis anos, disse Ovo, claro!

Voltei saltitante para o meu quarto, sonhando com aquela embalagem de chocolate linda, oval e colorida, tal qual aparecia nos encartes das Lojas Americanas ou nas seções dos mercados, que nesta época do ano ficam apinhadas de ovos pendurados. Um túnel de alegria. O “Sonho de Valsa” era o desejo de qualquer criança dos anos oitenta.
Chega sábado à noite e minha mãe, ainda mantendo o lúdico, comunica que o coelhinho (minha avó) iria passar no dia seguinte conforme combinado.

Dormi tão feliz. Chegou o grande dia. Acordo, olho para o canto da minha cama e encontro uma sacola das Lojas Americanas. Quanta emoção para uma pessoinha. Sentei. Abri. E era um… “Peraí, mas o que é que isso aqui, mãeeeeee”. “É um ovo, minha filha, de número três”. Minha primeira decepção familiar. Minha primeira vez vivendo um “expectativa (ovo de chocolate número quinze)” versus “realidade (ovo de chocolate do tamanho de um ovo de galinha)”.

Ano seguinte, a mesma isca, minha avó aparece mais mansa do que o habitual para mais uma vez jogar em mim a responsabilidade de uma decisão: “Ovo de chocolate ou caixa de bombom, minha netinha?”- fazendo uso de uma entonação meio “Você aceita essa maça?”. Já mais experiente no assunto e ciente do que a minha avó entendia por “ovo de páscoa” escolhi a caixa de bombom. Feliz.

Eis que chega domingo, a cena meio que se repete, ao lado da minha cama estava a sacola das Lojas Americanas com uma embalagem retangular dentro e embrulhada com um papel cheio de coelhinhos. Que fofo!

Rasgo o pacote empolgada, vislumbrando os meus bombons preferidos. Pá. Um estranhamento: a caixa era vermelha. Não era nem “azul Nestlé” e nem “amarelo Garoto”. Abro desconfiada e me deparo com uns bombons apáticos. Sou ousada, como um, é amargo. “São bombons da Erlan, minha filha… Da Erlan…”. Minha páscoa… Meus traumas.

Ano seguinte… “Não quero nada, não, vovó, obrigada”.